FRANTZ FANON: Um revolucionário, particularmente negro.


FAUSTINO, Deivison Mendes. Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro. 1. Ed. São Paulo: Ciclo Continuo Editorial,2018. p.144.

Em 95  Stuart Hall (ICA LONDRES) levanta a questão do motivo de interesse a respeito de Fanon  e seu Peles Negras Mascaras Brancas (52) naquele momento, antes disso os debates sobre Fanon eram vinculados à práxis revolucionaria e libertação do continente africano no terceiro mundo segundo Faustino. nesse ponto Hall pontua o quadro teórico de colaboração de Fanon  nos debates sobre subjetividade, identidade e cultura"p.13 Há segundo Hall não uma cisão entre condenados da terra e peles  negras  e sim um elo. p.14. NO interior da obra de Fanon esse elo seria o dos temas ligados a subjetividade e dos complexos psíquicos gerados pela e "epidermização do olhar" segundo Hall e Faustino avança e tem como eixo teórico de seu trabalho a respeito de Fano a sociogenia- termo que segundo ele ao citar Fanon diz respeito a um sócio diagnostico que conceba a subjetividade sempre em relação com seus determinantes históricos e sociais. Cita Lewis Gordon 2015 ao afirmar a respeito da abrangência da obra de fanon  pois que sua teoria engloba aspecto psicológico, social e cultural p.15

Rejeita o essencialismo coletivista da raça e recusa o universalismo abstrato europeu: afirmando um novo humanismop.16 tratando de particularidades universais SekiOtu 1996 este enxerga a possibilidade de articulação dialética entre interesses particulares e universais e ainda com Gordon que acrescentaria nessa articulação as dimensões sociais, culturais e subjetivas.

Argumenta Hall:

"Que as preocupações psicanalíticas estão presentes em toda a reflexão fanoniana, expressando a sua originalidade e, ao mesmo tempo, a profundidade de sua abordagem. Entretanto, a  articulação dessa dimensão a partir da perspectiva da sociogenia sugere serem os fatores sociais os elementos que tornam inteligíveis  tanto a interdição (colonial) da dialética do reconhecimento quanto as possibilidades de superação dessa interdição. Ao mesmo tempo, sugere que essa superação não pode ser concebida sem a devida atenção aos aspectos culturais e subjetivos da existencia humana."


Conforme Faustino 2015, Fanon busca interpretar a exsitencia humana conjugando a sua particularidade com seu contexto: tempo e espaço socialmente dado. Não ha portanto segundo o Faustino p.16 um Fanon atormentado e sim " uma pessoas procurando resposta para os desafios que a história lhe impôs[...]"

"[...] o corpo negado pelas adversidades coloniais, torna se uma presença ausente, um ente coisificado, parte de algo que nem mesmo humano chega a ser. É justamente a partir dessa urgência nascida da intimidade de quem vivenciou a negação, mas, sobretudo, optou por confronta-la, que melhor se compreendem as posicições defendidas ao longo da curta e, ao mesmo tempo, intensa vida de Fanon." Gordon 2015:7 citado por Faustino, p.19.

Fanon nascido 20 de julho de 1925 em Fort de France capital administrativa da Martinica de familia de classe média- colonia francesa do Caribe, (DOM) departamento de outro mar- coletividades integradas a República Francesa, atualmente são cinco: Guadalupe, Martinica, Guiana Francesa, Reunião Mayote.

A época eram 1.000  pessoas brancas detentoras da riqueza, békes, conforme Faustino, num universo de 300.000 mil pessoas dos quais 25.000 seria a classe média negra, no qual  a família de Fanon se encontrava e o restante " uma imensa massa de trabalhadores pauperizados portadores da maior marca discriminatória da ilha: o baixo domínio da lingua francesa" (Faustino, 2018, p.20).

Apesar disso todos eram ensinados a ser franceses, exaltando valores europeus e a repetir que seus pais eram os gauleses tal qual dádiva carregada de sadismo- Faustino 2018,p.20. e o contrario dessa exaltação era a negação de "todas as dimensões humanas dos nativos, observado no trato inferiorizante dispensado ao crioulo (ou patuá) que era a língua falada pelas classes subalternas da Martinica."

Conforme Faustino ja no inicio de Peles Negras há uma pontuação a respeito da língua: "o antilhano sera tanto mais branco, o verdadeiro, na medida em que adotar a língua francesa" p.21

" Na Europa  e nas colônias  o nativo não pode governar a si mesmo pois não fala a língua civilizada[...]a língua esta intimamente ligada a estrutura de classes[...] No terceiro mundo, os valores europeus estão constantemente exaltados como os únicos e verdadeiros valores" Geismar 72 citado por Faustino

Normativo então que se busque a aproximação com o europeu e o contrario disso é patologizado, segundo Fanon citado por Faustino "esse weltanschauung fetichizada permeava o imaginário daqueles que era prejudicados por ela. Assim o próprio mestiço se via superior ao negro e esse superior ao selvagem:

"o autor observa que naquele contexto o negro martinicano ignora o momento em que sua inferioridade passa pelo crivo do outro (ibidem 104 e diante dos povos colonizados e de costas para apropria situação sentia se europeu. Assim pra eles o Africano era um negro e o antilhano um europeu (Fanon 1964:30)" citações de Faustino

 E ainda assim esse mesmo negro europeu era tratado como petit negre linguagem que dava a entender cf. Faustino que aquele ficasse no seu lugar. p.23 Segundo Faustino a ideologia assimilacionista  fez parte da socialização de Fanon, pois era desencorajado a falar o crioulo, embora mais tarde (intelectual orgânico da frente nacional de libertação da Argélia tomasse posicionamento de que o crioulo antes desdenhado seria expressão de consciência transnacional, no entanto o esforço parecia vão diante do dilema colonial. O negro martinicano ainda que privilegiado era visto como subalterno ainda que tentasse ostentar rótulos de pretensa autenticidade francesa cf. Faustino e ainda:

"Em consequência, deveria submeter a sua maneira de ser e estar no mundo a uma constante vigília, como confessa o autor:" sim, é preciso que eu vigie minha alocução, pois também é através dela que serei julgado... Dirão de mi com desprezo: ele não sabe sequer falar o francês (idem p.36" Não falar o francês corretamente não é apenas  não dominar  a norma culta, mas, principalmente, não demonstrar ser suficientemente educado, civilizado, humano... branco! É ser apenas " um pivete, um negro" mesmo quando parte destacada dessa classe média". (Faustino, 2015, p.25.

 Fanon no ensino médio teve como professor Aime Césaire, a mãe de Fanon segundo Faustino citando Gendzier 1975  acabava por pressionar os filhos para ascencerem socialmentee isso pode ter causado uma "pressão problemática na vida de Fanon".Outros autores ainda afirmam sobre uma ansiedade edipica não elaborada dado os escritos pretensamente passionais de Fanon, (Gates Jr.91,Memmi 74, e Haal 95) Gordon 2015 refuta essas posições por serem segundo ele reducionistas.

Segundo Faustino é arriscado tomar a falta do pai como base para os escritos teóricos de Fanon e suas expecttivas de masculinidade e paternidade;

Houve discussões sobre os escritos a respeito da homossexualidade e compelxo de Edipo serem ou não heteronormativas e patriarcais, no entanto Faustino menciona mas não adentra esse tema nesse livro e segue afirmando que Fanon se deparou na verdade com uma sociedade (colonial) que se pretendia francesa a despeito  de esbarrar com as "agruras de sua propria negrura".p.31. Na socialização da martinica as criança aprendiam a repetir " eu sou francês" e se a criança se comportava mau dizia para não se comportar como negro, assim conforme Faustino Fanon vivia uma ambiguidade pois se sentia frances ainda que "pedisse que os exploradores os deixassem viver humanamente." Faustino citando Fanon 2008. p.31. 

Com a chegada dos soldados durante o regime de Vich no verão de 1940 houve uma tomada de consciencia sobre a real nacionalidade de quem era ou não frances, "quando os marinheiros se refugiaram em fort de france houve a exposição das marcas da racialização de uma forma jamais vista conforme Faustino. p.32 as dimesnões raciasi de exploração social das classes foram desnudadas, " a policia agia de forma totalitaria sempre antecipadamente os negros eram culpados, ate as mulheres por serem estupradas era um racismo totalitario"Faustino citando Geismar 1972.

Esta ja não era mais a França que os martinicanos foram ensinados a amar.Faustino p.33. " Inicialmente pensou se que esses soldados por serem capitulantes frente ao nazismo não estariam agindo como franceses, porem a necessidade de se defender dos invasores, houve a necessidade de se reconciliar  com a " identificação negra proposta por Cesaire anteriormente conforme citado em trecho anterior do livro. e então este ultimo foi compreendido e aceito.

Então a ilha passaria por um conflito de identidade após 45 considerando que antes de 39 tinham os olhos fixos na europa branca enquanto o bom era a fuga da cor, agora após 45 o martinicano descobria não apenas sua cor noir mas também, como Cesaire ja o havia feito: cindindo com a imagem ate então alimentada sobre e ainda conforme afirma Faustino citando Fanon com sua diferença amaldiçoada de négre e ao mesmo tempo com a possibilidade de se fazer algo frente a essa maldição : negritude:

 

"Assim diante desse fechamento ontológico, esse endurecimento do branco afetivo do branco, que o impossibilita de me ver como seu outro é compreensível que eu tenha decidido dar meu grito de négre" pouco a pouco criando pesudopodes secretei uma raça e esta raça titubeou sob o peso de um elemento fundamental" Faustino citando Fanon 1952:118. p.35

Neste momento de ruptura narcísica ainda se alista numa fração do exército pela libertação contra o nazismo, decepcionado com alguns franceses mas ainda crendo que a causa da França era também a sua segundo Faustino, p.36. Fanon no front se deparou com a realidade de tratamento dispensada aos outros franceses de ultramar não brancos, assim percebeu se que o tratamento não era exclusividade daqueles soldados franceses invasores.

Fanon então percebe que por mais que pensasse sentisse ou desejasse era apenas um preto frente aos brancos, jamais um francês filho legitimo da França.

Fanon retorna a Martinica em 1945 como veterano de guerra e agora pode ser um francês, conforme Faustino, p.39, ele então com ideias amadurecidas engaja se na campanha politica para eleger Aime Cesaire e este marcará sua produção dali em diante, não sem algumas discordâncias como o que ocorre com o movimento da negritude, onde este segundo Faustino para Fanon é necessário o movimento de afirmação, no entando, sem perder de vista o ser e suas particularidades. (op cit. p. 40 e Colonialismo, racismo e luta de classes: a atualidade de Frantz Fanon. Idem. disponível em https: <//www.uel.br/grupo-pesquisa/gepal/v16_deivison_GI.pdf> acesso em 16 jan. 25.

Fanon ingressa na universidade em lyon em 1946 cursando psiquiatria forense e apresenta um trabalho de conclusão de curso que não é aceito na academia e que seria publicado posteriormente como peles negras mascaras brancas; com influencias de Sartre e Marx conforme Faustino Fanon pensa a libertação nacional em termos de humanização universal do próprio homem. Renato  Ortiz citado por Faustino ainda suspeita da influencia de Ballandier sobre Fanon a respeito da alienação colonial.  O rico ambiente intelectual nesse contexto em que se encontrava Fanon permitiu a esse, conforme Faustino, transcender os limites biologicistas  que era o viés do próprio curso da psiquiatria forense o qual cursava, levando o a questionar  pressupostos importantes da psiquiatria, psicologia e psicanalise.p.45

Fanon não escolhe o isolamento racial na universidade conforme Faustino p.47 tem uma filha com uma russa.

Fanon no limite de muitas vivencias, inclusive a de estar na fronteira entre o mundo branco e o negro, Faustino p.51 e nesse contexto no fim do curso de psiquiatria foi impulsionado a transformar seus tormentos e introspecção poética- de caráter depressivo em programas políticos positivos Faustino citando  Geismar 1972:28, Fanon ainda manteve a influencia existencialista ao defender seu TCC afirmando  a necessidade de observar o contexto sociocultural dos pacientes da doença de Friedreich.

Após casar se e ter o segundo filho começa a revisão de peles negras, o que não havia sido aceito na academia e permutado pelo  estudo da doença acima citada. De inicio nesse livro pergunta Fanon: "o que quer o homem negro?" a resposta então transparece o humanismo radical  que transita entre elementos da fenomenologia existencial, do marxismo e da psicanalise a partir das diversas provocações antieurocentricas oferecidas pelo movimento da negritude" Faustino p.55

No capitulo o negro e a linguagem ele aventa sobre a obrigação do sujeito colonizado abrir mão de tudo que lhe compõe em nome da ideologia da cultura européia. Após vai discutir sobre os efeitos sociais e psíquicos da animalização colonial e das implicações patológicas de um desejo do negro pelo mundo do branco, vai apos articular criticamente estudos psicologicos entre colonização e racismo e a naturalização das relações de poder dai advindas com os estudos fenomenologicos pautados em Sartre ainda que esse cimento sob o qual se edifica a obra de fanon não considere o quanto a racialização nos desumaniza p56. Presente em toda o trabalho há o dialogo critico com o movimento da negritude  Ele já reconhece a importância histórico do movimento mas aponta limites e armadilhas que o discurso indentitário pode portar. e finaliza rejeitando alguns pressupostos do movimento da negritude declaradamente e traz a tona trechos do 18 brumario. p.56.

Fanon dialoga com Mannoni ao não se resignar com o complexo de inferioridade inato aventado por aquele no caso dos malgaches, bem como não se resigna com a usurpação sem culpabilidade da ilha pelos colonizadores, Fanon nesse ponto solicita a Mannoni qual o truque para tal posicionamento e responde que as condiçoes sociais e econômicas de luta de classes é que determinaria a sexualidade para o caso aventado por Mannoni, ou seja que é impossível desassociar o social para compreender a subjetividade e a verdadeira desalienação do negro. Faustino p. 59. e que tal significa a tomada de consciência de realidades econômicas e sociais, assim tem se que a realidade posta é que interessa e que  a superação da alienação passa pela reorganização das forças que a engendram- conforme Faustino afirma citando Gordon, 2015 e finaliza o capitulo provocativo que evoca este onde "as vezes uma arma é só uma arma" citando Fanon convocando o homem acional. 

Ó meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona"

Fanon em 1952 vai para Saint Alban trabalhar com Tosqueles psiquiatra anticolonialista criador da terapia comunitária estudando o sofrimento psíquico em relação ao meio ao qual o doente esta inserido. apos o estagio com aquele Fanon assumi o posto de chefe de hospital na Normandia e logo após se muda para Argélia e lá compreende melhor os Impactos do colonialismo na estrutura psíquica humana. Faustino p. 66.

Nesse local Fanon se depara com pacientes franceses e argelinos agonizantes em decorrência dos transtornos mentais causados pela violência. Faustino p.67

" criam se em torno do explorado uma atmosfera de submissão e de inibição capazes de aliviar o trabalho da força policial [...] nos países capitalistas  entre o explorado e o explorador interpõe se uma multidão de professores, conselheiros, de "desorientadores". Nas regiões coloniais em contrapartida, o policial e o soldado, por sua presença imediata, em suas intervenções diretas e frequentes, mantem o contato com o colonizado e lhe aconselham com coronhadas ou napalm que fique quieto . Como vemos o intermediário do poder utiliza linguagem de pura violência. O intermediário não alivia a opressão, não disfarça a dominação. Ele as expõe, ele as manifesta com a consciência tranquila das forças da ordem. O intermediário leva a violência para as casas e para os cérebros dos colonizados. (Fanon 2010:55- citado por Faustino p.67)

De um lado havia a violência e de outro perceptível a resistência desesperada a tal violência, Fanon continua seus estudos sobre a dimensão subjetiva do individuo  e sua relação com o colonialismo ou seja as pesquisas sobre as origens sociais do sofrimento psíquico, ainda que tal aspecto da obra segundo Faustino seja pouco explorado.p.71 

 Fanon toma posição em 54 quando dos inicio oficial da guerra da libertação da a Argélia,  ele que já defendia uma revolução social para a reestruturação dos problemas referentes aos complexos coloniais Faustino p.73 A Argélia foi o expoente mais violento da repressão contra a libertação buscada pela Argélia, isso pois a Argélia era considerada extensão da França. Além do conjunto de praticas manejadas pela colonização  como a super exploração da  força de trabalho e da predação dos recursos naturais a posição geopolítica da Argélia fez do território a colônia mais importante do imperialismo Francês. Nessa altura o cenário internacional estava acirrado e os paises ditos de terceiro mundo se organizavam contra o colonialismo em favor d libertação, e Fanon escreve em 57 que esperava mais apoio a liberdade de autodeterminação dos povos pela esquerda francesa, Faustino p.77. Fanon ao final de 54 a partir das intensificações das contradições coloniais toma partido pela luta ao lado do povo argelino.p.78

Fanon se incomodava com a postra da comunidade francesa na Argélia e incomodava também onde vivia (Blida desde 53), Acabou por repetir a conduta do pai, sendo ausente da família em nome do trabalho, que levava um ritmo extenuante conforme Faustinop.79.

Manville retorna a vida de Fanon como visita em 55, p.79um dos poucos advogados a defender militantes acusados de terrorismo. Fanon intelectual, critico com comprometido com a transformação social se posicionou em favor dos rebeldes argelinos visto que em 55 a luta pela libertação se tornou um fato social p. 80.

Tratou de colaborar com os cuidados médicos dos torturados pelo Estado Francês que apresentavam em decorrência daquele fato distúrbios psíquicos. Fanon só assumiria publicamente sua relação com frente de libertação nacional da Argélia com quem já mantinha laços após deixar os pais, embora escrevesse artigos para a frente não os assinava e somente ficou obvia sua participação em 59 quando escreve a sociologia da revolução argelina.

Em dezembro de 56 fora convidado para falar no  I Congresso de escritores e artistas negros, como delegado da Martinica, ainda que la não vivesse ha tempos, ainda que fosse critico ao culturalismo e ao movimento da negritude, la encontrou Senghor, Davis, Diop,Cesaire entre outros dentre eles fundadores do movimento da negritude, nessa ocasião houve um telegrama de W E B Du Bois. p.85

Fanon em sua fala  Racismo e cultura publicada posteriormente  em por uma revolução africana deixa nítido suas diferenças com o movimento da negritude e contem tres grandes teses interconectadas :

1 que o racismo é um elemento cultural e presentifica se em toda a tessitura social que o abriga p.85

"Estudar as relações entre racismo e cultura é levantar a questão da sua ação recíproca. Se a Cultura é o conjunto dos comportamentso motores e mentais nascido do encontro do homem com  a natureza e com o seu semelhante, devemos dizer que o racismo é sem sombra de dúvida um elemento cultural. Assim há culturas com o racismo e culturas sem o racismo" Faustino citando Fanon-1980:36, p.86

Significando que o racismo perpassa as dimensões individuais ou intersubjetivas mas permeia as diversas instancias da sociabilidade p.86. Nas palavras do próprio Fanon: " Em uma cultura com racismo, o racista é, pois normal"(idem p.44) Faustino. p.86 

"Em consequência não apenas os preconceitos e atitudes isoladas, mas a política, a ética e a estética de uma sociedade racista estariam, portanto, impregnados de uma forma de conceber o negro- mas poderia também ser o árabe, o indiano, o judeu etc- simbolicamente  destituídos de seus atributos humanos.  E por ser , de outro lado, elemento cultural, o racismo se modificaria plasticamente no tempo e no espaço para atender às mais diversas necessidades de manutenção da exploração e submissão. Se outrora serviria como dispositivo ideologico de dominação colonial  legitimando se primeiramente com discursos religiosos e posteriormente pseudocientificos, o periodo analisado por Fanon apontava para novas formas de dominação que prescindiam de justificativas biológicos. Tratava se agora de explicar a inferioridade dos africanos pela sua cultura. Essa mudança nas formas de apresentação fenomênica do racismo, comemorada por muitos como seu enfraquecimento e que seria na verdade, defende o autor, uma peça publicitária capaz de obscurecer a dimensão real do problema." A impressão da diminuição do racismo seria simplesmente a consequência  da evolução das formas de exploração, os psicólogos falam de um preconceito tornado inconsciente."

O racismo agora é cultivado, menos brutal, surgindo nesse estagio uma ideologia democrática e humana, o empreendimento comercial de escravização cede progressivamente o passo a uma mistificação verbal- isso interessa a manter o tema como meditativo ou técnica publicitaria Fanon 1980:41 Faustino p.87.

A segunda tese é que a dimensão cultural que constitui o racismo não o explica de per si, ele se torna inteligível na mediação socioeconômica e histórica ou seja a subordinação econômica e até biologica de um povo p. 35 Fanon Assim esta longe de ser um confronto de civilizações e culturas ou fenômeno que se explica sozinha p. 37-38, ao contrario o racismo é a negação sistemática da humanidade do outro com vistas a sua exploração e dominação

"O racismo é elemento de um conjunto mais vasto: a opressão sistematizada de um povo: a opressão sistematizada de um povo- destruição de  valores culturais, modalidades de existência. Linguagem, vestuário, técnicas são desvalorizados. Na realidade as nações que empreendem uma guerra colonial não se preocupam com o confronto de culturas, visto tratar se de um negócio gigante a primeira necessidade é a escravização no sentido mais rigoroso da população autóctone, p. 37 38 citado por Faustino p87-88

e para tanto, a escravização, o primeiro fosse viável seria preciso destruir todos os sistemas de referencias dos povos a serem subjugados, assim Fanon afirma que é em decorrência dessa necessidade  ( procedimento primeiramente econômico) que se desdobra a pilhagem dos esquemas culturais  ou pelo menos condicionam essa pilhagem Fanon 1980 p;37 e 38 Faustino p.88

"O panorama social é desestruturada, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados. Desmoronadas as linhas de força já não ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, não proposto mas afirmado, como todo o seu peso de canhões e de sabres"

Apreendendo essas mediações pode se compreender em que sentido caminham as mutações do racismo "A cultura para ele não é arbitrária ou autônoma em relação à atividade concreta dos seres humanos na historia as mudanças na forma do racismo- como um elemento cultural seriam compreendidas a partir da apreensão das demais determinações que influenciam e também são influenciadas pelo seu curso. Faustino  p.88

A terceira tese se chocou bastante com as tendências do congresso: a critica a afirmação unilateral da cultura outrora negada pelo colonialismo: Fanon observa que os movimentos anticoloniais criticam corretamente a estigmatizarão e negação da cultura dos povos colonizados. E crê que é acertada a desestabilização nas verdades propaladas pelo colonizador assim a afirmação da cultura outrora negada configura se como um ato politico altamente relevante uma vez que os conflitos políticos também se não no campo da cultura.

Fanon critica a mumificação da cultura, aquilo que permite aos antropologos catalogar um determinado comportamento e fecha lo- sob a peca de preserva lo  como culturas exóticas, impedindo que os sujeitos se movam no tempo e seja destituidos de de sua autodeterminação histórica

"A preocupação constantemente afirmada de  "respeitar a cultura das populações autóctones" não significa, portanto, que se consideram os valores veiculados pela cultura, encarnados pelos homens. Bem depressa se adivinha, antes, nessa tentativa uma vontade de objetivar, de encaixar e aprisionar e enquistar. Frases como : "e os conheço, eles são assim" traduzem esta objetivação levada ao maximo, assim conheço os gestos os pensamentos que definem estes homens. 

O grande ponto em torno de movimentos políticos que se mobilizam em torno de identidades subalternizadas ´" É O DE TRANSCENDER A OBJETIFICAÇÃO DA PROPRIA EXISTENCIA"  se é verdade que existe uma importância subjetiva incomparável op. cit 47 Faustino citando Fanon p.90. 

"nesse procedimento apaixonado que agora- de forma invertida lança de volta o colonizado para a cultura que um dia ele mesmo renegou, é verdade também que esse retorno passional poderia leva lo a perder se no culto a elementos inertes, sem dinamiza-los a partir de dentro em face das novas necessidade que a luta anticolonial impõe." Faustino p.90

A defesa da cultura embora necessária feita de forma passional é paradoxal  e precisa ser superada em nome de um projeto maior: "É somente " ao sair destes esponsais apaixonados - que- o autóctone terá decidido, com 'conhecimento de causa', lutar contra todas as formas de exploração  e alienação do homem. Fanon 1980 p. 47 Citado por Faustino p.90

Fanon ao retornar do congresso depara se com o acirramento da guerra na Argélia e como diretor do hospital recebe tanto os torturadores franceses como os torturados esses ele os trata clandestinamente, Gibson 2011 citado por Faustino  p.91. Dos poucos amigos de trabalho que lhe restavam em comunhão com seus ideais muitos foram presos, inclusive o Dr. Lacaton que foi levado a tortura, por ser branco e francês tido como um traidor teve um tratamento ainda pior. segundo Geismar citado por Faustino p.92 1972:84 . Este não revelou sua participação junto a FLN, não delatou Fanon, no entanto não provou que era contra a libertação da Argélia e apos as torturas sistematizadas muito debilitado foi jogado nos arredores da cidade e após saiu da Argélia. Conforme Geismar op. cit.  citado por Faustino p.92.

Fanon não aguentando a pressão escreve ao diretor administrativo da França na Argélia afirmando a que ponto de loucura estão sendo levados os árabes em seu território e simplesmente é expulso, sem maiores alardes, sem interrogatório ou prisão, embora fosse publicamente anticolonial, de retorno a Lyon encontra se com Francis Jaeson que é quem publica peles negras mascaras brancas, encontra se também com Sartre e segue para Tunísia. haviam células da FLN  na França e os intelectuais franceses colaboravam com a luta pela libertação e assim Jeason prepara os documentos clandestinos para família de Fanon seguir rutmo a Tunísia onde seria acolhido por correspondentes da FLN. Faustino p.95.

Em Tunísia pode continuar pesquisando sobre o sofrimento psíquico e atuando junto a autodenominada agora ao invés de FLN para GRPA governo provisório da republica argelina do qual foi eleito embaixador para a Africa Subsaariana e foi também escritor do jornal em moudjahid principal instrumento de propaganda ideológica da  organização Faustino p.97.

Na Africa buscar defesa para libertação para Argélia era privilegiar os seus antigos colonizadores e por isso era tido como um pedido de apoio hipocita no entando Fanon lidou com o dilema e contribuiu com  a criação de novos laços e ainda continuou com seu trabalho nos hospitais da Tunísia, em 58 precisou de passaporte com pseudônimo de  Omar Ibhahin Fanon para transitar em suas tarefas internacionais. p. 98 Esteve presente em 59 no II congresso de escritores e artistas negros  em Roma com as mesmas criticas referentes ao movimento da negritude, onde sugere o engajamento dos intelectuais e artistas junto aos povos colonizados agregando seus saberes  visto que para ele somente somente a práxis politica revolucionaria poderia gerar a transformação das condições concretas da realidade conforme Faustino p.100. E seria a partir desse engajamento que seria possível o surgimento de formas de cultura fecundas e excepcionais. Fanon acredita que a posição tomada pelos intelectuais do movimento da negritude seja aquela de lançar se apaixonadamente a cultura dos povos colonizados como resgate da cultura negra que ultrapasse fronteiras Fanon pensa essa cultura que a mesma deva ser vista de seu contexto local- nacional p. 101.

Nesse ano Fanon ainda tenta junto ao governo tunisiano um novo complexo de saúde mental de linhas tosquelianas e ainda que fosse amparado na observação atenta das particularidades da cultura árabe africana no entanto o projeto foi abandonado em virtude de dificuldades  de relacionamento no trabalho p.102. 

Em seu livro 59 a sociologia da revolução Fanon traça uma etnografia do processo revolucionário Faustino p.53 ele quer também oferecer uma alternativa com esse livro ao povo argelino e a comunidade internacional as propagandas de  comunicação-assimilação francesas. tal livro ainda oferece uma abordagem priviliegiada das posições teoricas e politica de Fanon p.103. Com 5 anos de luta na Argélia Fanon descreve com propriedade a mobilização social em curso seus limites e possibilidades para a formação de subjetividades descolonizadas p.103 e alerta sobre as reações do colonizador e os meios que esse utiliza para manter a  dominação.

Fanon respondendo a alegoria HEGELIANA do senhor e do escravo da um outro desfecho mostrando que o escravo não se torna sujeito a partir de sua submissão e sim de sua tomada de consciência de ser submisso e se rebelar, é portanto na luta que este se afirma e se transforma " seu reconhecimento como objeto é o ponto de partida para recuperar o destino em suas próprias mãos p.104

Se o branco cria o negro no momento em que não reconhece sua humanidade  submetendo o  a negações de toda ordem, objetificando o  e quando este ser negados e rebela negando a negação que ofra imposta tomado a si o direito de definir se ao mundo RECOLOCA A DIALÉTICA DA DOMINAÇÃO EM UM OUTRO PATAMAR AFIRMANDO SE COMO SUJEITO mas nada garante que esse desejo de autoafirmação será recebido sem reação e na verdade sim com brutalidade. Faustino p.105 Assim é o negro que cria a negritude no momento em que rejeita a posição de objeto a partir do LOCUS politico onde se encontra ou seja sua próprio negrura Faustino p.105 Este ainda cita Du Bois quando afirmou que para emancipação é preciso a tomada de consciência da violência colonial em todas as dimensões e tomar posse de sua cultura negada como pontos de partida sem perder de vista que  A SUBSTANCIA IMPULSIONADORA DA AFIRMAÇÃO IDNENTITÁRIA- a negação original- foi oferecida pelo seu algoz e afirma que ASSUMI LA DE FORMA DESAVISADA RESULTARÁ NA ACEITAÇÃO DO OLHAR DISTORCIDO QUE O COLONIZADOR LHE IMPOS- tem se que a rejeição de ser objetificado  É UMA NOVA DIMENSÃO DA SUA EXISTENCIA os homens estão mudando no mesmo momento em que mudam o mundo Faustinop.105 Fanon pensa a cultura não como algo fixo em relação ao processo de luta e sim a partir das pessoas ativas que  na historia que os símbolos adquirem novos significados. Por exemplo como o véu utilizado pelas islâmicas na Argélia e estigmatizado pelo opressor francês toma outro significado quando este mesmo véu é utilizado pelas guerrilheiras para confundi-los- com isso Fanon destaca o compromisso revolucionário que se estabeleceu não foi com o resgate ou repetição da tradição ou retorno as origens essenciais MAS SIM O COMPROMISSO COM AS PESSOAS VIVAS E ATIVAS QUE POR SEREM SUJEITOS HISTÓRICOS PODEM RESSIGNIFICAR OS VALORES QUE OS CONFORMAM

A Argélia se liberta em 62 e os acontecimentos posteriores são desfavoráveis as teses de Fanon, no entanto o livro transcende os limites geográficos da Argélia e traz importantes questões a respeito de um processo revolucionário. Cesaire e Memme não quiseram prefacia-lo.p. 107

Fanon vigiado passou a sofrer uma série de atentados quando de suas missões por exemplo em 59 ao ser enviado pela GRPA para a fronteira entre Marrocos e Argélia Para se tratar desse acidente com a mina que tolheu seu carro no caminho para a referida missão fora enviado para Roma onde sofreu novos atentados como por exemplo a invasão de seu antigo quarto no mesmo hospital bem como a bomba em seu carro. Os atentados foram atribuídos a lá main rouge organização de ultra direita Fanon se entregou totalmente a cauda Argelina e então ao falar no congresso dos povos africanos se emocionou e disse ser impossível sabendo daqueles horrores cometidos contra aquele povo não se entregar a causa


“Que ele se sentia incapaz de transmitir para aqueles que o rodeavam a extensão dos sacrifícios do povo argelino. Nem acreditava ser necessário: a causa do GRPA deveria despertar automaticamente o apoio de todas as pessoas que conheciam o domínio colonial,e, na verdade de todos os seres racionais “ e não consegue continuar visto as emoções que lhe assaltam

Em 60 após circular por vários locais do continente africano fomentando a necessidade de expansão da guerra inicia um texto sobre a relação da revolução argelina com outros povos do continente no entanto o texto nunca se findou visto que seus esforços estavam muito voltados para a formação de uma LEGIÃO AFRICANA principalmente na África de língua francesa embora tal projeto não contasse com a mesma fervorosa vontade entre os demais dirigentes da organização e nesse momento confessa a Beauvoir2009:644, que temia tornar se um revolucionário profissional por achar se no momento limitado a fim de contribuir com a causa argelina

Solicita A GRPA que transferisse sua atuação para Cuba a fim de acompanhar de perto a revolução lá ocorrida porém tem seu pedido negado e continua seu trabalho habitual . 109 a 112 Se descobre então com leucemia em 60 e nega se tratar nos EUA Parte então para a Rússia: Faustino p. 113 Na corrida conta o tempo visto saber se condenado a morte próxima trabalha mais de 20 horas por dia

Período difícil quando se sentia o brio revolucionário esfriar mormente com o assassinato do líder pan-africanista Patrice Lumumba e com a crescente influência das alas mais moderadas sobre o movimento de libertação oque para ele indícios de uma capitulação que poderia causar prejuízos aos esforços em curso e abrir caminho para o estabelecimento do neocolonialismo E nesse período começa a escrever o fruto de seus acumulos teóricos e em 9 semanas, muito debilitado conclui OS CONDENADOS DA TERRA  

Seu título é inspirado na poesia de Jacques Roumain Sales nègres que se inspira em L’ Internacionale do anarquista eugène edine pottier 

“Para Fanon diferente do que propunha o movimento comunista francês,a aposta superação radical da situação colonial não estaria no proletariado industrial quase ausente nas colônias e quando presente e quando presente na maioria das vezes comprometido com a manutenção da ordem colonial, para ele os condenados estavam entre aqueles que nada tinham a perder aqueles que só tinham seus grilhões por isso aposta no lumpenproletariado e nos camponeses como força politica capaz de se opor ao jugo colonial.

O livro alerta sobre as violências dessa relação sejam simbólicas ou materiais:

"A descolonização que se propor mudar a ordem do mundo é, como se vê, um programa de desordem absoluta [...]  é um processo histórico: isto é, ela só pode ser empreendida, só tem inteligibilidade, só se torna translúcida para si mesma na exata medida em que discerne o movimento historicizante que lhe dá forma e conteúdo. A descolonização é o encontro de duas forças congenitamente antagônicas, que têm precisamente a sua origem nessa espécie de substancialização que a situação colonial excreta e alimenta [...]  a descolonização é verdadeiramente a criação de homens novos. Mas essa criação não recebe a sua potência de nenhuma coisa sobrenatural: a " coisa" colonizada se torna homem no processo mesmo pelo qual ela se liberta" Faustino p.116 citando Fanon 2010:52.

Ele afirma que os países subdesenvolvidos com os quais alguns ele tinha relação em virtude de diálogos constantes com os movimentos pan africanistas e terceiro mundistas afirma que  não se pode ignorar as particularidades do estabelecimento do capitalismo as diferenças nas composições das classes e seus interesses assim os países coloniais seriam economicamente atrasados e subdesenvolvidos em decorrência da relação histórica com suas metrópoles sanguessugas 

" Esta realidade relegaria às colônias uma produção de bens primários voltados à exportação de bens primários, um campesinato pauperizado e analfabeto e uma burguesia local subordinada a interesse externos, estas burguesias forjadas no processo colonial, mesmo quando apoiam a independência tendem a trair sua vocação" de classe e não assumir a frente em processos  produtivos a fim de acumular o excedente no próprio pais abrindo brecha ao neocolonialismo" Faustino p.116

no capitulo  3 ele fala da inutilidade da fase da burguesia na história dos países subdesenvolvidos:  

"quando esta casta for suprimida por suas próprias contradições perceberemos que nada aconteceu depois da independência, visto que nada se fez durante o reinado dessa burguesia que só fez tomar a herança da economia sem mudança de pensamento e das instituições coloniais Fanon 2010:204 citado por Faustino117

Em seu dialogo com a negritude ele afirma que esta é a antítese afetiva, senão lógica do insulto que o homem branco comete contra a humanidade: essa negritude lançada contra o desprezo do branco se revelou em certos setores como o único fator capaz de derrubar interdições e maldições  Faustino 117 no entanto essa contraposição historicamente necessária levou a um impasse: a afirmação incondicional da cultura europeia sucedeu a afirmação incondicional da cultura africana: se o colonialismo definiu como essencialmente negro a emoção o corpo a virilidade a ludicidade  e sobretudo classificou como hierarquicamente inferiores esses elementos sem relação a não menos fetichizada da figura do europeu como detentor de razão, civilização, cultura, universalidade- o movimento da negritude sem romper com esses fetichismo apenas inverteu os polos da hierarquia passando a considerar positivo aqueilo que o colonialismo classificou como inferior

E para Fanon elementos afirmados  pelo colonialismo como essencialmente africanos e agora afirmados pelo movimento como superiores e desejáveis frente a frieza tecnicista ocidental (Senghor 1939) " as almas da gente negra passam a ser classificadas como essências metafisicas a ser resgatadas e afirmadas a fim de que o negro pudesse se reencontrar consigo mesmo e isso para Fanon poderia gerar o aprisionamento do negro nessa armadilha, ora essa essência negra que se busca restaurar ou libertar é uma invenção do racismo colonial a serviço da desumanização do africano e assim aceita-la portanto implicaria na não rejeição dos pressupostos que sustentam o colonialismo, para ele valorizar mais a cultura do que o produtor dela ou seja preservar resgatar cultura como prioridade corre o risco de inversão de prioridades do mundo, ora os seres humanos são o que fazem e como fazem e isso para ele poderia levar os movimentos negros a um impasse perigoso tal como " colocar todos os negros  no mesmo saco", buscar um passado glorioso em detrimento de uma realidade objetivamente desumanizadora e valorizar acriticamente e de forma apaixonada tudo que for africano e ao mesmo tempo negar de forma religiosa tudo o que for " Ocidental" e aceitar o pressuposto racista que a cultura negra é fechada estática e morta

Para ele é necessário ir além das afirmações das especificidades culturais historicamente negadas para ele quem deve resistir são as pessoas produtoras da cultura e não a cultura sim pessoas produtoras da cultura a partir de seus referenciais simbólicos sempre em transformação p.119 o colonialismo nega ao colonizado  a possibilidade de efetivação de uma cultura autêntica e por isso a emancipação cultura passa pela emancipação  das pessoas que a produzem e se produzem a partir dela é o colonialismo portanto que a engessa em catálogos em seu ato negador e reificador tratando a como elemento morto p.119 Fanon prima pela não secundarizarão do individuo em detrimento de uma busca por resgate de cultura e sim prima por sua emancipação embora o mesmo não negue a  necessidade e importância de afirmação cultural pelo fim material, epistêmico cultural do colonialismo- ao invés de se lançar fanaticamente a algo negado pelo colonialismo o combatente colonizado ele se  transformara no despertador do povo ao invés de ser perder no meio dele.

em 61 em Roma tratando de reumatismo em virtude da leucemia encontrando se com Sartre  solicitou que este o prefaciasse  isso gerou polemicas mas uma aventada foi a de sua crença numa sociedade multirraciais, Ainda que Sartre houvesse sido criticado em peles negras no seu Orfeu negro quando afirmou que a negritude era só um capitulo na dialética marxista e alertado  para os perigos do pensamento dialético fechado  devendo refletir juntamente com a realidade concreta posta pelo colonialismo gerando formulações mais refinadas conforme Gordon  citado por Faustino ( 106-7) p.120

 PARA GORDON AINDA O FATO DE SARTRE TER SIDO ESCOLHIDO PARA PRECACIA LO SE JUSTIFICARIA PELA CRENÇA DE FANON NA EMANCIPAÇÃO HUMANA E SUPERAÇÃO DE BARREIRAS RACIAIS E  ASSIM A PARCERIA ENTRE BRANCOS, EUROPEUS, FRANCESES ALIADOS CONTRA O COLONIALISMO SERIA UMA TAREFA IMPORTANTE (op. cit) Faustino p.120

Em setembro de  61 vai se tratar nos EUA  financiado por um agente da CIA  Oliver Iesling e seus biógrafos não tem consenso sobre os reais motivos de tal patrocínio ou ainda se sua morte ocorrida em dezembro do mesmo ano tenha sido antecipada por eles. Embora Gordon acreditasse que nenhuma informação ele tivesse passado pois era especialista em técnicas de resistência a tortura 

Nos dias de hoje Fanon tem sido chave para a compreensão da sociedade contemporânea e suas contradições  a abrangência do seu pensamento influenciando vários intelectuais de varias áreas mostra a força de sua obra  no entanto deve se ter cuidado nas analises da atualidade de seus pensamento considerando o espaço tempo seu tempo era aquele em que revolução social e emancipação humana faziam parte do léxico comum, assim sendo a aposta dele para toda a periferia do capitalismo seria a práxis revolucionaria

Hall fala de  um Fanon traduzido como inaugurador do pós estruturalismo ao desnudar as anomalias do afeto racializado (Hall 1996:19) e ainda fala na incompletude de Fanon que ao mesmo tempo que perturbava leva a varias direções ja para Gordon e Seki Otu e alguns outros seria a intensidade de Fanon no seu tempo para os tempos atuais visto que o que o assombrava anteriormente assombra ainda hoje sem uma oposição a altura

Gordon afirma que não se pode ainda assim retomar Fanon de forma acrítica e sim pela continuidade e desenvolvimento de seu trabalho com vistas a intervenção em novos e velhos problemas.

Assim Gibson e Wallerstain (2009) chamam a atenção para a continuidade de seu trabalho visto a mesma continuidade da violência colonial em nossos dias potencializada pelas transformações dos processos produtivos- incluindo a desestabilização e a criação de novas fronteiras uteis às atuais necessidades de acumulação capitalista e exportação de contradições sociais para a periferia do capitalismos e particularmente pelas  especificidades geográficas da luta de classes representada pela articulação entre racismo- divisão internacional do trabalho e problemas climáticos urbanos. Seki Otu Jane Gordon que para ambos a atualidade de Fanon estaria na capacidade de articular filosoficamente as categorias particular e universal das identidades humanas permitindo equacionar alguns problemas que ele já alertava em sua época e que seguem em nossos dias sem resposta para Seki Otu o novo humanismo de Fanon apontaria para o oximoro de agencia negra-africana  que permitiria superar a dicotomia amplamente presente na África pós colonial entre um nacionalismo totalitário e um tribalismo genocida p.127 Jane Gordon pelo mesmo caminho identificando em Fanon a capacidade de articular demandas particulares e universais com as demandas politicas e para ela o neoliberalismo para alem da invocação do estado mínimo desregulamentação de direitos e advocay é a insistente afirmação de do particularismo relativista que seduz os esforços mais rebeldes enquanto nos impossibilita de construir soluções coletivas para os problemas comuns ela ainda afirma que ele apostava  numa unidade que ampliasse nossa humanidade para além de si mesma e como afirmava o próprio Fanon (56 " a percepção e a afirmação de si não deve implicar o fechamento do outro mas o esforço constante para identifica os elementos que lhe são comuns.

Faustino afirma que o debate sobre Fanon esta aberto em em franca ascensão,  e ainda que era atento ao seu tempo e aos perigos da escravização pelo passado o que atualmente podem levar a entender a african spring bem como a colonização na palestina no que diz respeito aos perigos da identidade e da violencia no que diz respeito sobre seus apontamentos sobre solidariedade, assim seus avisos não apenas sobre violência colonial  mas também sobre os perigos do nacionalismo e da violência anticolonial- quando destituída de um certo humanismo- parecem bastante atuais. O caso identificado como militância por Mbembe como lumpemradicalismo são exemplos sintomáticos desses perigos e ainda o que Fanon diria sobre o racismo e sobre a re-balcanização do mundo cf. Mbembe- por meio de criação de novas e manutenção de antigas fronteiras politicas, culturais, religiosas , militares para os condenados da terra em politicas de inimizade" quando é flexibilizada para a livre passagem de capitais? Faustino p.129 e ainda sobre as manifestações atuais do racismo o que diria Fanon sobre a cooptaçã o do neoliberalismo progressista e seu colapso em países centrais do capitalismo e por um lado como a era Trump poe fim a conciliação politica no Brasil ha bandeiras de movimentos identitários inclusive na TV sem alteração sequer das estruturas raciais de poder implícitas onde quer que circulem tais bandeiras, por outro lado a ascensão da extrema direita seria reação ao neoliberalismo progressista?

Gilroy 2007 fala da inserção de Ronaldo jogador negro nas propagandas para nike afirmando não ser possível dissolver imagens racializadas desses sujeitos " mas ao contrário essa pseudo inserção ocorra possivelmente por causa da racialização isso seria aquilo que Fanon chamou em 56 de racismo cultural ou uma nova forma de racismo não prevista nessa época? As respostas hoje para Fanon dependem de nossas perguntas cf. Faustino p.130 bem como da nossa disposição em responde las e a consequência dessas respostas. Ainda assim o retorno a sua obra é inspirador  e necessário p. 130



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